sábado, 17 de novembro de 2007

Ser Professor...

Leia tudo, acredito que valha a pena!


Pode parecer pretensioso, e no fundo é.

Enxergamos a educação de um modo, mas existem vários!

Atribuímos valores às dores de nossos alunos, mas não são suas dores!

Esperamos que todos façam sua parte, mas... Apenas esperamos...

Minhas experiências com o direito à educação são inúmeras, mas por fim, gostaria de dividí-las com vocês através dos seguintes trechos de Eduardo Galeano, em sua obra “O Livro dos Abraços”, publicado pela L&PM.

Os trechos entre aspas pertencem Galeano.

Em algum momento, geralmente no início da vida escolar, nossos alunos me parecem assim...

“Diego não conhecia o mar. O pai, Santiago Kovadloff, levou-o para que descobrisse o mar.
Viajaram para o sul.

Ele, o mar, estava do outro lado das dunas altas, esperando.

Quando o menino e o pai enfim alcançaram aquelas alturas de areia, depois de muito caminhar, o mar estava na frente de seus olhos. E foi tanta a imensidão do mar, e tanto o seu fulgor, que o menino ficou mudo de beleza.

E quando finalmente consegui falar, tremendo, gaguejando, pediu ao pai:
- Me ajuda a olhar!”

Outros, no mesmo instante, descobrindo uma novidade, me lembram...

“Certa manhã, ganhamos de presente um coelhinho das Índias.

Chegou em casa numa gaiola. Ao meio-dia, abri a porta da gaiola.

Voltei para casa ao anoitecer e o encontrei tal e qual o havia deixado: gaiola adentro, grudado nas barras, tremendo por causa do susto da liberdade.”

Outros me surpreenderam tanto que compartilho de imediato com eles algo que lhes abrirá o mundo....

“Um homem dos vinhedos falou, em agonia, junto ao ouvido de Marcela. Antes de morrer, revelou a ela o segredo:

- A Uva – sussurrou – é feita de vinho.

Marcela Pérez-Silva me contou isso, e eu pensei: Se a uva é feita de vinho, talvez a gente seja as palavras que contam o que a gente é.”

Outros me surpreendem, quando minha distração me leva longe de mais, e ali estão eles me chamando....

“O pastor Miguel Brum me contou que há alguns anos esteve com os índios do Chaco paraguaio.

Ele formava parte de uma missão evangelizadora. Os missionários visitaram um cacique que tinha fama de ser muito sábio. O cacique, um gordo quieto e calado,
escutou sem pestanejar a propaganda religiosa que leram para ele na língua dos índios. Quando a leitura terminou, os missionários ficaram esperando.

O cacique levou um tempo. Depois opinou:

- Você coça. E coça bastante, e coça muito bem.

E sentenciou:

Mas onde você coça não coça.”

Mas me realizo quando posso comungar a fantasia e assim me incluir junto à eles...

“Foi na entrada da aldeia de Ollantaytambo, perto de Cuzco. Eu tinha me soltado de um grupo de turistas e estava sozinho, olhando de longe as ruínas de pedra, quando um menino do lugar, esquelético, esfarrapado, chegou perto para me pedir que desse a ele de presente uma caneta. Eu não podia dar a caneta que tinha, porque estava usando-a para fazer sei lá que anotações, mas me ofereci para desenhar um porquinho em sua mão.

Subitamente, correu a notícia. E de repente me vi cercado por um enxame de meninos que exigiam, aos berros, que eu desenhasse em suas mãozinhas rachadas de sujeira e frio, pele de couro queimado: havia os que queriam um condor e uma serpente, outros preferiam periquitos ou corujas, e não faltava que pedisse um fantasma ou dragão.

Então, no meio daquele alvoroço, um desamparadozinho que não chegava a mais de um metro do chão, mostrou-me um relógio desenhado com tinta negra em seu pulso:

- Quem mandou o relógio foi um tio meu, que mora em Lima – disse.

- E funciona direito? - perguntei.

- Atrasa um pouco – reconheceu.”

Acredito que das escolhas que da infância e da adolescência que não fiz, ser professor foi a melhor delas!